Antes de chegar à história principal, vale começar com um cenário que já dizia muito sobre o que viria pela frente. Na véspera de Páscoa, três cidades da região viveram tardes de futebol daquelas que ficam guardadas para sempre na memória de quem esteve envolvido. As quartas de final da Libertadores Regional Concrepassos, na categoria principal, levaram emoção a Campo Novo, Crissiumal e Nova Candelária, e que recebram os muncipios de Esprança do Sul, Santo Augusto e Sao Jose do Inhacora.

Em Campo Novo, o duelo entre CMD Campo Novo e CMD Esperança terminou empatado em 1×1 no tempo normal. A decisão foi para os pênaltis e o CMD Esperança levou a melhor: 5×3 e vaga garantida na semifinal.
Em Crissiumal, o América de Santo Augusto mostrou força com uma vitória sólida por 2×0 sobre o Flamengo, carimbou sua presença entre os quatro melhores da competição.
Já em Nova Candelária, em jogo eletrizante Associação Candelária e Riograndense empataram em 2×2 no tempo normal e nos pênaltis, o Riograndense foi mais eficiente: 4×2 e classificação heroica fora de casa.
Mas o ponto central desta história vai muito além dos resultados. O que está acontecendo nesta Libertadores Regional é algo que, se fosse em um campeonato brasileiro ou em uma competição internacional, certamente viraria manchete nacional, tema de debate em programas esportivos e assunto nas redes sociais.
Estamos falando da qualidade dos jogos e, principalmente, das histórias que estão sendo escritas dentro de campo.
Veja o caso do Riograndense. O time foi até Nova Candelária, enfrentou um adversário bicampeão regional em um estádio conhecido por sua torcida vibrante e participativa e conseguiu arrancar um 2×2 no tempo normal. Nos pênaltis, mostrou sangue frio e voltou para casa classificado entre os quatro melhores do noroeste do estado.
Ou então a trajetória impressionante do América de Santo Augusto. Primeiro eliminou o atual bicampeão e dono dos três últimos títulos regionais, o Avante de Boa Vista, com um contundente 3×0. Na sequência, enfrentou o atual vice-campeão da Libertadores Regional e da Copa das Regiões e novamente venceu, desta vez por 2×0, na casa do adversário. Uma campanha que mostra um time forte, competitivo e sem medo.
E talvez a história mais cinematográfica seja a do CMD Esperança.
Uma equipe que entrou no mata-mata apenas na 16ª posição. Classificou-se quase no último suspiro, graças a um gol do São Cristóvão aos 47 minutos do segundo tempo contra o Granada, que lhe deu a vaga no saldo de gols. Nas oitavas, enfrentou justamente o São Cristóvão e venceu por 2×1 fora de casa.
Mas o capítulo mais inacreditável veio nas quartas. Jogando em Campo Novo, o time saiu atrás no placar, buscou o empate, teve um jogador expulso no início do segundo tempo e ainda perdeu o goleiro por lesão e sem ter reserva no banco. Um jogador de linha assumiu a camisa 1. A decisão foi para os pênaltis. E ali aconteceu improvável, defendeu duas cobranças e ainda bateu o pênalti decisivo que classificou o time.
Diga a verdade: se isso acontecesse em um grande estádio do futebol profissional, rodaria o mundo. Seria capa de jornal, viraria documentário, renderia entrevistas e debates.
Mas aconteceu aqui. Nos nossos campos. Com nossos clubes, nossos atletas e nossas torcidas.
Por isso talvez esteja na hora de valorizarmos ainda mais o que é nosso. Reconhecer o trabalho que os clubes fazem pelo futebol amador, a dedicação dos jogadores que entram em campo por amor ao esporte e a qualidade dos jogos que estamos assistindo.
Não por acaso, muita gente de fora já diz: hoje temos a melhor competição de várzea do interior do Rio Grande do Sul.
E quem acompanha de perto sabe que isso não é exagero. Porque quando a bola rola por aqui, não nascem apenas resultados.
Nascem histórias. Histórias de superação, paixão e orgulho que fazem o futebol viver muito além dos grandes estadios e que mostram que, no interior, a varzea respira e bate muito forte o coraçao.
João Carlos C. Ferreira
Colunista Esportivo – Tribuna | Portal Diário
Desportista organizador dos campeonatos regionais de futebol de campo















