Escrito por 15:12 Crissiumal

A rivalidade entre Brasil e Argentina sob a ótica da cultura gaúcha

BRASIL, GAUCHO, ARGENTINO Poucas rivalidades no esporte são tão intensas quanto Brasil e Argentina. Mas essa disputa vai muito além do futebol. Ela nasceu séculos antes da bola rolar, quando Portugal e Espanha disputavam o controle da região da Bacia do Prata durante o período colonial. Conflitos como a Guerra da Cisplatina e a Guerra do Prata ajudaram a construir uma rivalidade política, territorial e cultural que, mais tarde, foi herdada pelo futebol. Em grande parte do Brasil, torcer contra a Argentina virou quase uma tradição. Os “hermanos” são vistos como os maiores rivais dentro de campo, e muitas vezes esse sentimento ultrapassou o esporte. Mas será que essa percepção é a mesma no Rio Grande do Sul? Do Gaúcho? A resposta, ao meu ver, é não. O gaúcho possui uma formação histórica diferente do restante do país. O Rio Grande do Sul foi uma terra disputada por portugueses e espanhóis durante séculos. Essa convivência de fronteira fez nascer uma identidade própria, muito ligada ao Uruguai e à Argentina. O chimarrão, o churrasco, o cavalo, a bombacha, o pampa e diversas tradições campeiras aproximam o gaúcho dos povos do Prata muito mais do que dos grandes estados do brasil. É uma identidade construída pela geografia, pela história e pelos costumes. O futebol gaúcho sempre valorizou equipes aguerridas, competitivas, que nunca desistem. É uma característica muito parecida com a escola argentina. Os cânticos das torcidas, principalmente da torcida gremista, também possuem forte influência da cultura das arquibancadas argentinas e uruguaias. Não por acaso, alguns dos maiores ídolos recentes da dupla Gre-Nal são argentinos. Walter Kannemann, no Grêmio, e Andrés D’Alessandro, no Internacional, conquistaram o respeito dos torcedores pela entrega, raça e pelo amor demonstrado à camisa do clubes. Talvez por isso exista entre muitos gaúchos um sentimento diferente em relação aos argentinos. A rivalidade permanece, afinal ninguém gosta de perder para o maior adversário. Mas, em muitos casos, ela parece ser mais esportiva do que emocional. Existe ainda outro fator importante. Historicamente, o Rio Grande do Sul sempre cultivou um espírito de independência e resistência. O gaúcho muitas vezes sente que precisa lutar contra tudo e contra todos para conquistar reconhecimento nacional. No futebol, não são poucos os episódios em que torcedores acreditam ter sido prejudicados ou menos valorizados do que equipes do eixo Rio-São Paulo. Isso fortalece uma identidade própria e uma sensação de pertencimento diferente do restante do país. Essa postura não aparece apenas no esporte. Ela faz parte da história do povo gaúcho, acostumado a enfrentar desafios e defender suas tradições. Agora, com mais uma Copa do Mundo movimentando e colocando novamente a Argentina entre as protagonistas, a discussão reaparece, afinal, brasileiro torce para a Argentina? Na maior parte do Brasil, especialmente nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, a resposta tende a ser negativa. Para muitos, torcer pelos argentinos é quase uma heresia esportiva, uma traição. No Rio Grande do Sul, porém, a realidade parece ser diferente. A proximidade geográfica, a herança cultural e as semelhanças na forma de viver e de enxergar o futebol tornam essa rivalidade menos carregada de ressentimento. Continuamos rivais. Queremos vencer a Argentina sempre. Mas talvez o gaúcho enxergue o argentino não apenas como um adversário, e sim como um vizinho que, de certa forma, ajudou a construir parte da nossa própria identidade e história. E talvez seja isso que torne essa rivalidade tão fascinante.

Fonte: João Carlos C. Ferreira.