
DESCULPA, NÃO É VÁRZEA
Do Gre-Nal 452, disputado no Beira-Rio pela 11ª rodada do Brasileirão, ficou um rótulo que dominou os debates esportivos: “foi uma várzea”. Mas, com todo respeito, isso é uma injustiça com a várzea.
Porque o que se viu em campo não representa nem de longe o futebol raiz e gaúcho, competitivo, vibrante e que se joga nos campos amadores. Foram 99 minutos e 30 segundos de partida, mas apenas 44 minutos e 59 segundos de bola rolando. Ou seja, não tivemos sequer um tempo completo de jogo efetivo — algo que dificilmente se vê na várzea.
Foram 27 minutos de bola parada entre a marcação das faltas e suas cobranças. Um clássico em que os times simplesmente não quiseram jogar. Apenas duas chances de gol: uma defesa para cada goleiro. Um jogo pobre, sem emoção, sem intensidade e, principalmente, sem qualidade.
Do lado gremista, o sistema defensivo foi um verdadeiro convite ao desastre. Gustavo Martins, em noite desastrosa, entregou a bola em pelo menos quatro oportunidades. Pavón errou da mesma forma na saída de bola. Viery seguiu o mesmo caminho: falhou ao tentar sair jogando, insistiu no erro e acabou expulso após perder a bola e cometer falta dura. E, ainda assim, esses erros não foram fatais, muito por conta da fragilidade ofensiva do adversário. Se fosse contra outro rival, certamente o Grêmio seria derrotado — e de forma dura.
E aqui vai outro ponto: na várzea, dificilmente se vê uma defesa tão desorganizada e insegura como a do Grêmio neste clássico.
Pelo lado colorado, o problema esteve do meio para frente. A apatia de Alan Patrick chamou atenção. Borré teve uma única oportunidade, bem defendida por Weverton. Carbonero apareceu mais no barulho do que na efetividade. E Vitinho… passou pelo jogo sem deixar qualquer marca, positiva ou negativa.
Sinceramente, na várzea temos meio-campistas mais criativos, atacantes mais decisivos e jogos muito mais intensos.
Mais de 30 jogadores passaram pelo gramado, entre titulares e reservas. E, mesmo assim, é difícil apontar destaques. Talvez o jovem Pedro Gabriel, pelo lado gremista, e o veterano Mercado, pelo lado colorado. Muito pouco para um clássico que, dias atrás, discutíamos ser o maior do país.
Nem discussão teve. Nenhuma provocação. Nenhuma polêmica de arbitragem. Um Gre-Nal sem alma, sem tensão, sem história.
E isso escancara um problema maior: a pobreza técnica do futebol gaúcho atual. Um cenário que afasta o torcedor dos estádios, tira a esperança de títulos e transforma o objetivo dos clubes em algo preocupante: brigar para não cair e olhar para baixo na tabela o ano todo.
Sim, concordo com muitos analistas — e vou cravar: foi o pior Gre-Nal, o mais feio que já assisti.
Mas não concordo, e nunca vou concordar, em chamar este clássico 452 de várzea.
Porque na várzea tem qualidade. Tem entrega. Tem gol. Tem jogador que decide. Tem torcida à beira do campo. Tem alegria.
A verdadeira várzea joga um futebol muito mais digno — um futebol de primeira divisão.
Se há uma várzea nessa história… ela não está nos campos do interior gaúcho.
Ela está, hoje, dentro dos grandes estádios da capital.
Colunista João Ferreira, especial para o Portal Diário















