Um casal formado por uma arquiteta catarinense de 31 anos e um empresário gaúcho de 33 anos foi preso preventivamente na última quarta-feira (8) após investigação que revelou um esquema milionário de estelionato na construção civil em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina. Conforme a Polícia Civil, o prejuízo causado às vítimas ultrapassa R$ 14 milhões.

O casal foi localizado em São Borja, no Rio Grande do Sul, cidade natal do empresário, onde estava foragido desde setembro de 2025. A arquiteta é natural de Chapecó.
Investigação e confirmação
A operação foi conduzida pelo Departamento de Investigação Criminal (DIC) de Chapecó, por meio da Delegacia de Repressão a Roubos de Fronteira (DRR/Fron), com apoio da Polícia Civil gaúcha. O delegado Elder Arruda Chaves, responsável pelo inquérito, instaurou o procedimento em 20 de fevereiro de 2026 após centralizar diversos boletins de ocorrência registrados contra os investigados.
Segundo a Polícia Civil, o casal fundou em 2022 a empresa M’Blak Hauss Arquitetura e Engenharia Ltda, com sede no bairro Santa Paulina, em Chapecó. A construtora oferecia serviços de construção de residências de alto padrão em condomínios fechados da cidade, com contratos que variavam de R$ 350 mil a R$ 2,4 milhões.
Como funcionava o esquema
Conforme apurou a Polícia Civil, o casal captava recursos de diversos clientes ao mesmo tempo, iniciando várias obras simultaneamente. Também adquiriam materiais de construção no comércio local com pagamento a prazo. As obras, no entanto, não eram concluídas.
De acordo com o delegado Elder Arruda Chaves, os investigados não entregaram sequer 15% do que havia sido contratado na maioria dos casos. Ainda segundo a investigação, os suspeitos utilizavam material inferior ao prometido nos contratos, colocavam a culpa pelos atrasos nos fornecedores e pedreiros, e abandonavam as construções de forma deliberada após o recebimento da maior parte dos valores.
As vítimas incluem médicos, servidores públicos federais, serventuários da Justiça, engenheiros e economistas. Conforme a Polícia Civil, o número de lesados pode chegar a 14 pessoas.
Vítimas e prejuízos milionários
Uma das vítimas, um casal formado por um médico de 57 anos e uma servidora pública federal de 45 anos, contratou uma reforma no valor de R$ 900 mil em dezembro de 2024. Conforme relato à polícia, a construtora apresentou erros na obra, atrasou pagamentos a pedreiros e fornecedores e chegou a dizer que seria necessário demolir tudo e recomeçar do zero. O prejuízo estimado é de R$ 1 milhão.
Uma médica de 40 anos contratou a construtora para edificar uma casa em um condomínio de Chapecó pelo valor de R$ 2,3 milhões. Segundo o registro policial, ela pagou R$ 1,9 milhão, mas a empresa abandonou a obra, não pagou os empreiteiros e trocou de telefone.
Um casal formado por uma serventuária do Tribunal de Justiça de SC e um engenheiro contratou a construtora em março de 2024 para erguer uma residência pelo valor de R$ 1,48 milhão. Eles entregaram um apartamento avaliado em R$ 470 mil como parte do pagamento, além de valores em dinheiro e financiamento. A obra foi paralisada com cerca de 40% de execução, e prestadores de serviço passaram a ameaçar depredar a construção por falta de pagamento.
Um empresário de 41 anos pagou cerca de R$ 900 mil e recebeu apenas 52% da obra contratada. Uma economista de 63 anos desembolsou R$ 247 mil, equivalente a 75% do valor do contrato, e ficou com a construção parada. Um gerente de empresa de 24 anos pagou mais de R$ 545 mil e descobriu, por meio de um grupo de WhatsApp, que havia dezenas de pessoas na mesma situação.
Além dos registros policiais, a construtora também acumula reclamação no site Reclame Aqui. Um cliente relata que a obra foi entregue com problemas no telhado, infiltração em paredes, piso em desacordo com o contratado, acabamentos péssimos e problemas elétricos. Segundo o relato, terceiros que prestaram serviço na obra procuraram o próprio cliente para cobrar valores que a empresa não pagou.
Fuga e nova empresa
Segundo a investigação, em setembro de 2025, após acumular queixas de clientes e fornecedores, o casal abandonou Chapecó sem comunicar os contratantes. O escritório da empresa foi fechado.
Ainda conforme a polícia, antes da fuga, os investigados já haviam constituído uma segunda empresa, a M’Blak Hauss Construções Ltda, com CNPJ diferente, mas mesma finalidade, para dar continuidade aos golpes.
A Polícia Civil localizou o casal na zona rural de São Borja, na propriedade de um familiar do empresário. Conforme apurado, enquanto as vítimas em Chapecó acumulavam prejuízos milionários, o casal construía uma residência própria no Rio Grande do Sul.
Sem bens e suspeita de lavagem de dinheiro
Pesquisas nos cartórios de imóveis de Chapecó, no Detran e em sistemas de segurança pública revelaram que nenhum dos investigados possui bens registrados em seu nome, apesar do faturamento milionário da empresa. A Polícia Civil instaurou um inquérito paralelo para apurar o crime de lavagem de capitais e rastrear o destino dos valores.
Prisão e apreensões
A Justiça autorizou a prisão preventiva do casal e mandados de busca e apreensão após manifestação favorável do Ministério Público. Na operação, realizada na quarta-feira (8), foram apreendidos dois aparelhos celulares, R$ 21,5 mil em espécie, uma CPU de computador e 18 cartões de crédito.
Os investigados foram interrogados, mas optaram por permanecer em silêncio. O casal foi encaminhado ao sistema prisional de São Borja, onde permanece à disposição da Justiça.
Próximos passos
Conforme a Polícia Civil, o inquérito que investiga os crimes de estelionato deve ser concluído em até 10 dias. O procedimento paralelo que apura lavagem de capitais segue em andamento, com pedidos de quebra de sigilo bancário e fiscal dos investigados.
Fonte: Jornal Razão
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