Escrito por • 17:26• Crissiumal

MORRE UM ICONE DO JORNALISMO GAÚCHO

Um colorado que conquistou gremistas, um jornalista que fez da opinião uma marca e um frasista que jamais será esquecido.
A comunicação gaúcha perde um de seus jornalistas mais icônicos. Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, aos 70 anos e deixa uma lacuna no jornalismo.
Colunista do Diário Gaúcho e integrante do tradicional Sala de Redação, da Rádio Gaúcha, Guerrinha surgiu no jornalismo em 1973 e construiu uma trajetória de mais de cinco décadas. Foram anos de informação, opiniões, análises sinceras e, acima de tudo, um jeito único de enxergar o esporte.
Colorado assumido, Guerrinha era daqueles personagens raros que conseguiam ultrapassar a rivalidade. Era identificado com o Internacional, mas conquistou também o respeito, a admiração e o carinho dos gremistas.
E quem acompanhava o Sala de Redação sabia: quando Guerrinha começava a falar, era bom prestar atenção. Nem sempre pela análise tática, nem sempre pela discussão sobre o momento de Grêmio ou Inter, mas porque, a qualquer instante, poderia surgir uma daquelas frases que explicavam tudo sem precisar de uma longa argumentação.
Guerrinha era um frasista genial. Tinha o dom de transformar situações corriqueiras em pérolas do jornalismo esportivo. Seu estilo irreverente o tornou um personagem da cultura esportiva gaúcha.
E suas frases não ficaram restritas às ondas do rádio. Atravessaram gerações, ganharam as redes sociais e viraram memes, conquistando até quem talvez nunca tenha acompanhado sua trajetória.
Quem nunca ouviu Guerrinha dizer:
“Não se vai à guerra com uma escova de dente.” ou, diante de alguma situação em que parecia que nada poderia dar certo: “Se eu comprar um circo, o anão cresce.”
E quando o assunto era a motivação de um time, vinha aquela ironia inconfundível: “O time vai jogar motivado? Então ele vai perder motivado.”
Era assim. Enquanto muitos procuravam palavras difíceis, Guerrinha encontrava uma comparação que fazia todo mundo entender e, quase sempre, rir.
“Se caminhar fosse bom, carteiro não morria.”
“Não se cura o câncer com aspirina.”
“A última calcinha que eu vi foi da vizinha no varal.”
“Não dá pra comer banana e assoviar ao mesmo tempo.”
“O pianista é no piano. O guitarrista é na guitarra.”
Frases que, fora de contexto, poderiam parecer absurdas. Na boca de Guerrinha, ganhavam sentido.
E havia também as tiradas sobre assuntos que, para ele, não mereciam tanta preocupação. “Ninguém quer saber preço do dólar, não tenho dólar!”
“Não me importa a eleição dos Estados Unidos, eu não tenho título nos Estados Unidos.”
“Hoje é quarta-feira e minha mulher sabe.”
Era impossível não reconhecer o personagem. Guerrinha tinha uma resposta para quase tudo, e o segredo estava justamente em não tentar parecer engraçado. O humor surgia naturalmente.
Até a longevidade de seu casamento, que teria durado cerca de 50 anos, virou motivo para uma de suas respostas mais características. Perguntado sobre o segredo da relação, respondeu, sem rodeios: “Não falar com ela.”
Entre tantas histórias atribuídas ao jornalista, uma das mais engraçadas envolve um cavalo cego. Conta-se que, passando por dificuldades financeiras, ele resolveu vender o animal sem avisar o comprador sobre a deficiência. Dias depois, recebeu uma ligação:
Guerrinha, tu me vendeu um cavalo cego? A resposta teria sido imediata:
“Tu quer cavalo pra correr ou ler jornal?”
Como alguém que acompanha o esporte diariamente, confesso minha admiração. Sempre parei para ouvir o que Guerrinha tinha a dizer.
Sou fã de Guerrinha porque ele representava uma forma autêntica de fazer jornalismo: com personalidade, coragem, liberdade para brincar e a capacidade de entender que o futebol, apesar de toda a paixão que desperta, também precisa ser levado com bom humor.
Perdem os colorado, mas a despedida não pertence apenas aos colorados. Pertence também aos gremistas, aos ouvintes, aos leitores e a todos aqueles que, em algum momento, foram surpreendidos por uma de suas frases.
Guerrinha soube respeitar a rivalidade gaúcha sem abrir mão de sua identidade. E conquistou um espaço que vai muito além das cores vermelha e azul. Sua voz não estará mais presente no rádio. Não haverá uma nova tirada inesperada, uma resposta atravessada ou aquela comparação absurda.Mas algumas pessoas não desaparecem quando deixam de falar. Continuam presentes nas histórias.
E, se existe uma maneira de homenagear alguém que fez do humor uma forma de enxergar a vida, talvez seja continuar rindo, compartilhando suas frases e lembrando que nem tudo precisa ser levado tão a sério.
Encerro esta coluna com uma frase que está no prefácio de seu livro, uma mensagem que resume muito do que Guerrinha representou e que serve como convite para todos nós:
“LEIA O LIVRO, ESCOLHA UMA FRASE E SAIA POR AÍ COMO O GUERRINHA, RINDO DA VIDA, QUE É COMO A VIDA DEVE SER VIVIDA.”

Fonte: Colunista esportivo João Carlos Ferreira