
Sobretaxa de 25% anunciada após investigação comercial vai atingir cerca de 4 mil produtos
Sem avanços nas negociações diplomáticas, o novo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros entrou em vigor às 01h01min desta quarta-feira (22), no horário de Brasília. A sobretaxa de 25% deve atingir cerca de 18% das exportações nacionais e quase a metade dos embarques do Rio Grande do Sul para o mercado norte-americano.
Com a nova taxação, confirmada na última quarta-feira pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), a tarifa efetiva média sobre todas as exportações do Brasil para os EUA vai subir de 11,7% para 18,2%, segundo a Global Trade Alert, plataforma independente de monitoramento de políticas comerciais.
Com isso, o país passará a ser o segundo mais tarifado pelos EUA, atrás apenas da China, cuja tarifa média chega a 27%. Até então, o Brasil estava na 13ª posição.
O impacto sobre o Rio Grande do Sul
O tarifaço vai impactar quase metade das exportações do Rio Grande do Sul (48,2%) para os Estados Unidos, segundo cálculo da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). O país é o segundo principal destino dos embarques do Estado.
Embora o governo norte-americano tenha divulgado uma ampla lista de exceções, somente 2% do total exportado pelo RS aos EUA foi incluído, com destaque para alguns itens de couro e pescado.
Enquanto isso, setores relevantes para a economia gaúcha permanecem afetados, como:
Máquinas e equipamentos, Equipamentos elétricos, Calçados, Móveis, Tabaco, Produtos metalúrgicos e Diversos bens manufaturados.
A nova sobretaxa se somará às tarifas aplicadas com base na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962, sobre produtos como aço, alumínio e seus derivados, e que atingem 36,9% dos embarques do Estado. No total, de acordo com a Fiergs, 85,1% das exportações do RS aos EUA estão sob impacto de taxação extra.
Esse cenário, conforme a entidade, mantém um elevado nível de restrição ao comércio bilateral, reduzindo a competitividade da indústria gaúcha no mercado norte-americano.
A tarifa de 25% coloca o Brasil entre os países com maior custo de acesso ao mercado norte-americano, atrás apenas da China, ampliando nossa desvantagem frente aos principais concorrentes internacionais.
O impacto sobre o país
A sobretaxa de 25% vai afetar importantes setores exportadores do país, como madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar. Ao todo, a lista de produtos sujeitos à nova tarifa tem cerca de 4 mil itens. Confira alguns:
Fuel oil (óleo combustível usado principalmente em geração de energia e em processos industriais), Gasolina, Carregadeiras, Transformadores elétricos, Bulldozers (equipamentos como escavadeiras e tratores), Motoniveladoras, Pneus para automóveis, caminhões e ônibus, Açúcar de cana, Etanol, Tabaco em folhas, Portas e madeira serrada, Madeira compensada, Calçados de couro, Granito e pedras trabalhadas, Matérias proteicas, Chapas de alumínio.
O governo federal estima que 18% das exportações brasileiras para os EUA serão afetadas, o equivalente a US$ 7,4 bilhões.
A sobretaxa agrava um cenário que já vinha pressionando as exportações nacionais. De acordo com a Confederação da Indústria Nacional (CNI), desde 2025 as exportações brasileiras para o mercado norte-americano diminuíram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões. A retração foi influenciada pela redução de 8,7% nas vendas de bens industriais.
Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 Estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre.
O governo brasileiro vai retaliar?
Embora a Casa Branca não dê sinais de que esteja disposta a negociar mais, o governo brasileiro descarta, até o momento, adotar medidas comerciais de reciprocidade.
Nesta terça-feira (21), após se reunir com representantes de setores atingidos, o vice-presidente Geraldo Alckmin confirmou que retaliar não está no radar do Planalto. – A ideia não é retaliação. Olho por olho pode acontecer dos dois ficarem cegos.
Empresários de setores afetados também defendem que o governo siga tentando reverter a sobretaxa por meio de negociação. — Entendemos que nós temos que continuar pela via diplomática-empresarial, o que nós estamos fazendo — disse José Velloso, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), após a reunião.
Também nesta terça-feira, na véspera da entrada em vigor da sobretaxa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma postagem em rede social na qual afirmou que “nada é mais sagrado do que a defesa da soberania nacional”. “Ninguém diz o que vamos fazer. O Brasil não se entrega”, escreveu o presidente.
As medidas para aliviar o impacto
Além de uma possível retaliação, o governo federal também estuda medidas para aliviar o impacto do tarifaço. Na última sexta-feira (17), o Ministério da Fazenda solicitou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a liberação de R$ 7,25 bilhões ao Tesouro para socorrer empresas afetadas.
A ideia é oferecer novas linhas de crédito com juros subsidiados, reforçando o Fundo de Garantia à Exportação (FGE).
Outras medidas, como ajustes no Plano Brasil Soberano para ampliar a elegibilidade das empresas, abertura de novos mercados para exportações e ações para reduzir o chamado Custo Brasil também estão no radar do Planalto.
Risco de nova taxação em breve
Além da tarifa adicional de 25%, há possibilidade de uma nova taxação contra o Brasil ser confirmada ainda esta semana. Em entrevista nesta terça-feira (21) à CNBC, o chefe do USTR, Jamieson Greer, afirmou que o governo americano anunciará “em breve” uma decisão sobre tarifas relacionadas ao uso de trabalho forçado nas cadeias de produção.
De acordo com Greer, 60 países devem ser atingidos pela medida. O Brasil está na lista e pode ser taxado em 12,5%, conforme recomendação do relatório preliminar publicado pelo USTR no dia 3 de junho.
— Os Estados Unidos têm leis que proíbem o comércio de bens produzidos com trabalho forçado. A maioria dos outros países não possui tais leis, e aqueles que as possuem não as aplicam de fato — alegou Greer.
Fonte: Portal diário com informações de GZH.















