
Depois de meses de negociações e da recente espera pela regulamentação, a partir desta semana a renegociação das dívidas rurais deve efetivamente começar a sair do papel. Bancos e cooperativas de crédito fazem os últimos ajustes para viabilizar os novos contratos, que poderão estender as dívidas por até dez anos, com juros subsidiados e período de carência.
Apesar de não ser unanimidade, a medida provisória editada pelo governo Lula atendeu à maior parte das reivindicações do setor, contemplando produtores e cooperativas que acumularam perdas recorrentes por questões climáticas e por oscilações de mercado entre 2019 e 2025.
O Rio Grande do Sul é, de longe, o Estado que mais necessita desse socorro. Em outras regiões do país, as perdas são pontuais. Entre os produtores gaúchos, porém, o problema ganhou outra dimensão, capaz de influenciar até mesmo o futuro da economia local.
As dificuldades de articulação da bancada gaúcha no Congresso já ficaram evidentes em vários episódios. Desta vez, contudo, a atuação de autoridades do Estado foi determinante para sensibilizar o Ministério da Fazenda a ceder em diversos pontos da discussão.
Diferentemente do Desenrola, voltado à renegociação de dívidas da população em geral, o socorro aos produtores não incluirá perdão dos débitos. Os prazos serão ampliados e recursos públicos garantirão juros abaixo da média de mercado. Ainda assim, seria desonesto classificar o programa como uma “pauta-bomba”, especialmente diante do impacto social da medida.
Quem não conhece a realidade do campo muitas vezes confunde eventuais protestos contra o governo com mera oposição política. Independentemente das preferências eleitorais, estamos diante de uma crise que não ocorreu — salvo raras exceções — por incompetência de quem produz, mas por circunstâncias climáticas e por fatores externos que escapam ao controle dos produtores.
Além disso, deixar de enfrentar a crise no campo significaria, na prática, comprometer o abastecimento e pressionar os preços dos alimentos para milhões de consumidores.
A poucas semanas da Expointer, o início das renegociações não encerra a crise, mas marca uma mudança de rumo. Depois de anos de perdas sucessivas, o maior desafio deixa de ser apenas sobreviver à próxima safra e passa a ser reconstruir as condições para que o campo volte a investir, produzir e ajudar a sustentar a economia gaúcha.
Fonte: Matheus Schuch / GZH
Foto: AEGRO.















